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Entrevistas a Luís Vicente e a Susana Varela, sobre a Unidade de Investigação Ecologia e Comportametno (EcoComp)
12/09/2014

Luís Vicente
O Professor Luís Vicente, também conhecido por Joca, é membro fundador, sócio número três e fez parte da Direcção da SPE até 2013. É Professor aposentado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, licenciado em Biologia e doutorado em Evolução. Para além da SPE, é também sócio fundador da Associação Portuguesa de Primatologia. Dirige uma profícua equipa de investigação - a EcoComp.

É um dos membros fundadores e o sócio número três da SPE. O que o motivou a contribuir para a fundação da Sociedade?
A minha opção pelo curso de Biologia deveu-se ao meu interesse pelo estudo do Comportamento Animal. A SPE permitiu congregar num projecto as pessoas com as quais já discutia estes assuntos.

Quando começou a interessar-se pelo estudo da Etologia? Quais foram os seus primeiros trabalhos?
Durante o secundário, seduzido pelos trabalhos da Jane Goodall. O primeiro trabalho em que participei foi sobre comportamento de saca-rabos.

Qual o livro ou obra sobre Etologia que mais o marcou?
São sempre as primeiras leituras que mais marcas deixam. Inicialmente, "Les Chimpanzées et Moi", da Jane Goodall, e o livro "The Study of Instinct", de N. Tinbergen. Logo a seguir, "Dos Animais e dos Homens", Jacob von Uexkull. Mas mais marcantes ainda, foram os meus professores, Luis Soczka e Bracinha Vieira, os meus colegas Vítor Almada e Rodrigo Saraiva, e todos os meus estudantes ao longo de 40 anos.

Quais os trabalhos de investigação actuais que considera mais importantes para o estudo da Etologia?
Os trabalhos na área da Etologia Cognitiva.

Qual é, na sua opinião, o contributo distintivo da Etologia em relação às outras ciências da vida?
A Etologia (prefiro Comportamento Animal) é a ponte entre o macrocosmos e o microcosmos, entre o ecossistema e o sistema nervoso. Permite compreender de forma integrativa os processos vitais.

Que futuro vê para a investigação da Etologia em Portugal?
A investigação científica, independentemente do campo, depende do interesse da sociedade no desenvolvimento da sua componente cultural. Numa sociedade neo-liberal e proto-fascista, como aquela em que se está a transformar a sociedade portuguesa, numa sociedade em que se valoriza mais do que tudo o apagamento da memória, o futuro da investigação científica é nulo.


Luís Vicente e Susana Varela
Como se chama e constitui a vossa equipa?
A nossa equipa chama-se EcoComp, de Ecologia e Comportamento. Pertencemos ao grupo da Biologia da Adaptação e dos Processos Ecológicos, que constitui o CESAM-Lisboa, sediado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Dentro do CESAM-Lisboa, estamos inseridos no laboratório da Ecologia Comportamental e Populacional. Somos, neste momento, 18 pessoas.
Para além de nós (Luís Vicente, Investigador Principal e Professor aposentado na FCUL e Susana A. M. Varela, Investigadora de Pós-doutoramento e Professora Convidada na FCUL), somos 14 estudantes de doutoramento e 2 de mestrado, para além de alguns estudantes de licenciatura que colaboram nalguns projectos.
Temos uma página na internet.

Quais as várias questões e modelos de estudo na equipa?
A nossa equipa é bastante heterogénea, dado que trabalhamos numa grande diversidade de questões e de modelos biológicos. Temos, assim, pessoas a trabalhar com répteis, anfíbios, peixes, invertebrados, primatas e seres humanos. As questões vão desde as adaptações comportamentais ao meio insular, aos comportamentos de escolha de habitat e de parceiro sexual e ao comportamento de jogo.
Adicionalmente, interessamo-nos também pela diversidade e abundância de espécies, pela conservação da dinâmica da natureza e pela relação sustentável entre as comunidades humanas e a natureza. Também a história da ciência e a ética, nomeadamente a ética ecológica e a ética em trabalhos que envolvem experimentação com animais, são temas de estudo no nosso grupo.

Qual a linha unificadora do grupo?
A linha unificadora é um quadro de referência pós-darwinista e adaptacionista. No âmbito do comportamento animal, interessamo-nos sobretudo por ecologia e evolução. Em maior detalhe, estudamos comunicação, sendo que as questões de base dizem respeito aos vários tipos de informação que os animais utilizam para tomar decisões, nomeadamente, escolha de habitat de reprodução e de parceiro sexual. A linha unificadora é, portanto, uma abordagem ao estudo do comportamento baseada na partilha de informação.

Quais as perspectivas futuras da vossa investigação?
Tendo em conta as condições actuais, a maior parte dos nossos alunos estão a trabalhar em questões relacionadas com a partilha de informação e em como a informação social condiciona as tomadas de decisão dos animais e em última instância, a evolução. Podemos por isso prever várias publicações nesta área no futuro próximo. Dada a importância destes estudos na literatura científica actual, esperamos fazer um contributo consistente e inovador.





Entrevista a Emanuel Gonçalves, sobre a Unidade de Investigação em Eco-Etologia (UIEE)
28/04/2014

Há quantos anos e em que enquadramento surgiu a Unidade de Investigação em Eco-Etologia?
A UIEE surgiu a partir do Grupo de Estudos Eco-Etológicos do ISPA, constituído em 1985 pelo nosso saudoso colega Vítor Almada e um conjunto de estudantes interessados na investigação em comportamento animal. Estavam entre esse grupo de estudantes eu próprio, o Rui Oliveira (ISPA), e o Eduardo Barata (Universidade de Évora), a que se juntaram diversos outros colegas do ISPA e de outras universidades de diversos pontos do país. Este Grupo de Estudos veio a dar origem à Unidade de Investigação em Eco-Etologia do ISPA através do seu reconhecimento formal pela FCT em 1994. Foi crescendo em número de investigadores e em áreas temáticas abordadas e hoje integra cerca de 20 membros doutorados e 30 colaboradores (entre estudantes de vários níveis de ensino).

Quais as várias questões de estudo na equipa?
A Unidade de Investigação em Eco-Etologia tem duas linhas de investigação principais: Biologia e Conservação de Organismos Aquáticos e Biologia Comportamental Integrativa.

A linha Biologia e Conservação de Organismos Aquáticos dedica-se ao estudo dos seguintes temas principais:
1) Monitorização, ecologia e dinâmica populacional da biodiversidade marinha nas águas portuguesas
Tendo como objetivos a monitorização de longo termo principalmente dirigida às comunidades das plataformas rochosas do intertidal e às comunidades de peixes de recife rochoso de ambientes costeiros. Os aspetos relacionadas com os principais fatores que influenciam a estruturação das comunidades, as suas variações temporais e espaciais, a influência das alterações climáticas e os desafios da conservação e gestão do meio marinho são tópicos abordados.

2) Biogeografia e filogeografia de organismos marinhos do Atlântico Nordeste e Mediterrânio e de peixes de água doce da Península Ibérica
Investiga os padrões de distribuição e as relações filogeográficas de espécies de ambientes marinhos e de água doce, através da utilização demarcadores mitocondriais e nucleares bem como informação demográfica, histórica, comportamental e ecológica. Em particular, os padrões de avanço e recuo dos limites de distribuição das espécies das regiões temperadas e a utilização das estimativas de Ne tanto na área da conservação como das pescas são tópicos de investigação.

3) Biologia e ecologia larvar de peixes costeiros
O estudo do comportamento e ecologia das larvas de peixes através das descrições dos padrões de desenvolvimento, de testes comportamentais associados com estímulos relacionados com a fase de assentamento, da investigação acerca dos padrões de distribuição horizontal, vertical e temporal e da sua influência na dinâmica populacional das espécies costeiras têm sido algumas das temáticas de estudo. Recentemente, o estudo em condições experimentais dos efeitos da acidificação no desenvolvimento e comportamento de larvas de peixe foi iniciado.

4) Reprodução ex-situ de espécies de peixes endémicos de água doce ameaçadas
Têm sido realizadas com sucesso diversas reintroduções de espécies ameaçadas em rios nacionais através de programas de reprodução, recuperação de habitats e reintrodução de indivíduos nesses habitats recuperados.

5) Bioacústica de peixes
Nesta temática tem sido investigada a função dos sinais acústicos em interações intraespecíficas, principalmente ao nível agonístico e reprodutor. São realizadas diversas experiências tanto no campo como em laboratório emitindo sons previamente gravados e avaliando a reação a esses sons de indivíduos em diferentes contextos sociais. A qualidade dos machos, taxas de sucesso reprodutor, deteção de conspecíficos em "corus" acústicos e sons associados com a reprodução têm sido testados em diferentes espécies. Recentemente procura-se igualmente relacionar os padrões encontrados com diferença a nível genético das populações estudadas.

6) Controle fisiológico e genético das histórias vitais alternativas em lampreias
São objeto de estudo as duas vias ontogenéticas associadas aos padrões de história vital das lampreias utilizando marcadores mitocondriais para avaliar os padrões de isolamento genético nas formas migratórias e não-migratórias deste grupo de peixes. As populações portuguesas são objeto de comparação com as restantes populações europeias.

7) Ecologia de tartarugas e aves marinhas
Têm sido realizados estudos comportamentais de longo-termo associados às migrações de aves marinhas e tartarugas. Frequentemente os investigadores participam e lideram expedições a diversos pontos do globo estudando os padrões de migração destas espécies, as interações e influência das pescarias globais na conservação das suas populações, os efeitos das alterações climáticas nestes padrões de migração e o estudo das interações com presas mesopelágicas em oceano aberto recorrendo a técnicas de barcoding.

8) Comportamento e bioacústica de cetáceos
Tem sido abordado o estudo da influência do ruído subaquático no comportamento acústico de uma população residente e ameaçada de golfinho. São ainda objeto de estudo os padrões de variação geográfica do repertório acústico de cetáceos, a variabilidade inter e intraindividual das emissões vocais em cativeiro bem como o estudo integrado do comportamento, emissões acústicas e atividade cerebral durante as diferentes fases do período circadiano.

A linha de investigação em Biologia Comportamental Integrativa tem como temas principais de estudo:
1) Mecanismos proximais e consequências ecológicas de tácticas alternativas de reprodução em peixes
Utilizando como modelo uma espécie onde ocorrem táticas alternativas de reprodução com dois tipos de machos, são estudados os processos de neurogénese e expressão génica utilizando tanto qPCR como hibridação in situ para identificação de genes candidatos, bem como sequenciação de RNA, com o objetivo de comparar os diferentes fenótipos tanto de machos como de fêmeas (nestas últimas relacionando com as diferenças a nível dos comportamentos de corte).

2) Mecanismos proximais de plasticidade social e as suas implicações evolutivas
Usando ciclídeos e o peixe-zebra como modelos de estudo tem sido investigado recentemente o paradigma "winner-loser" através da caracterização de áreas do cérebro ativadas por interações sociais, estudando o impacto de ganhar ou perder uma interação social no perfil de expressão génica em núcleos do cérebro identificados como sendo relevantes para transmitir informação social. Igualmente, estes efeitos do resultado de interações sociais é investigado ao nível da neurogénese e da atividade de moduladores neurais.

3) Mecanismos neuroendócrinos do comportamento cooperativo
São efetuados estudos dos efeitos neurofarmacológicos de neuropéptidos, monoaminas e hormonas esteroides associados aos níveis de comportamentos cooperativos observados em peixes.

4) Cognição em peixes e bem-estar;
A este nível estão em curso estudos que pretendem investigar de que modo alterações no ambiente se refletem nos padrões comportamentais através de testes de "contraste comportamental", estudando se essas respostas dependem de um processo do tipo reflexo ou de valorização cognitiva dos estímulos ambientais.

5) Memória especial e navegação em vertebrados
Esta temática investiga as bases neurais do comportamento de navegação em aves e peixes através da avaliação da resposta a estímulos diversos.

Quais os modelos (as espécies principais) de estudo?
Pela descrição anterior penso que fica evidente que existem diversos modelos de estudo associados às diversas temáticas de investigação na Unidade. Os peixes são um grupo importante que serviu e serve ainda de base a muitos dos estudos que realizamos. Algumas populações, em particular, são por nós estudadas há mais de 25 anos (é o caso de um caboz que apresenta táticas alternativas de reprodução) e os modelos animais com peixes têm ganho importância mais recente em diversos estudos laboratoriais, fisiológicos e genéticos. As aves, tartarugas e mamíferos marinhos e os peixes de água doce têm igualmente um interesse relevante em diversos estudos que realizamos.

Qual a principal linha unificadoras dentro do grupo todo ("the big picture")?
A linha unificadora da Unidade é a mesma que esteve na génese da sua criação: o comportamento animal. Hoje investigamos um conjunto de temáticas transversais e especializadas que vão da fisiologia à ecologia, da conservação à gestão de populações, das comunidades aos indivíduos, dos genes aos ecossistemas, etc. mas o comportamento continua a ser a matriz principal caracterizadora da UIEE.

Quais as perspectivas futuras da vossa investigação?
Como é sabido, o sistema científico nacional está em profunda mutação pelo que fazer previsões sobre perspetivas futuras de investigação é sempre arriscado. No entanto, as linhas principais que constituem o esqueleto de ação da investigação da UIEE deverão continuar a orientar a nossa atenção nos próximos anos. A título de exemplo, a um nível aplicado, pretendemos que os desafios da conservação e gestão dos ecossistemas continue a ter um lugar principal, canalizando o conhecimento científico nas diferentes vertentes relevantes (ecológica, fisiológica, biológica, comportamental) para este objetivo. Igualmente, a um nível mais fundamental, os estudos dos mecanismos neuroendócrinos do comportamento e da cognição, e as suas relações com a dimensão social das interações intra e interespecíficas continuará a merecer atenção especial.